segunda-feira, setembro 04, 2006

Sabes o que está quase, quase a chegar, SABES?

AH, então...não te cales; faz as malas e vai à Festa dos Capuchos.
Como diz no pré-histórico sítio electrónico da CMVV "O povo calipolense tem boa índole e forte sentimento religioso. Apesar de notar-se indiferença no cumprimento de alguns preceitos morais cristãos e a manifestação de certo relaxamento de costumes, a situação religiosa aqui é incomparavelmente melhor do que em muitos outros aglomerados urbanos e concelhios do nosso país.
Vila Viçosa tem uma história religiosa particular e de imensa glória que ela nunca poderá esquecer. Desse passado provém a memória pétrea e simbólica dos seus principais monumentos, erguidos e mantidos pela enorme espiritualidade das suas gentes, os filhos da terra da padroeira de Portugal."
Em homenagem ao Senhor Jesus dos Aflitos, esta festa surge precisamente em frente do Convento de S. Francisco dos Capuchos, cuja 1.ª pedra foi lançada a 6 de Julho de 1606, gravando-se nela o nome do duque D. Teodósio II de Bragança, dando uma nova casa aos capuchinhos (o primeiro convento situava-se algures na estrada de S. Romão e foi um dos primeiros conventos fransciscanos em Portugal, como relata António Xavier no seu estudo sobre conventos franciscanos). À cerimónia assistiu o duque, acompanhado de seu filho primogénito, D. João, futuro Rei Restaurador.
O Sr. Joaquim Saial descreve assim aquilo a que chama de "momentos Capuchais":
Momento 1 – Largada
O barulho era atroador. A multidão concentrada em redor da praça acotovelava-se e ululava, acirrando o touro que – considerava ela –, com todo aquele aparato, melhor brilho traria à largada. A Alzira do Aleixo, ao saltar para um tractor, já partira o salto alto de um dos sapatos que calçara no casamento da filha; o velho Chico Carapeta tinha caído por duas vezes das tábuas, pelo que apresentava um galo na testa e levava repetidas vezes a mão ao cóccix; e o neto da Maria Quitéria não parava de chorar, devido a duas estaladas que ela lhe dera, por dizer «Ó avó, ê tenho medo do tôro!». Entretanto, o dito cujo rondava a fonte, arfando sedento, à procura da fresquidão que se desprendia das quatro bicas e da arca de água. Mas o líquido também era motivo de desejo de uma vespa que ele espantou com o rabo e logo de seguida se virou em looping até o atingir com certeira ferroada no cachaço. Vai daí, o animal desatou em correria louca na direcção da Rua de Cambaia, saltou o gradeamento de madeira e seguiu por ali abaixo, depois de partir três ou quatro esqueletos de espectadores próximos e outras tantas montras de lojas. Num último arranque, antes de atingir o Rossio, ainda embateu contra o Zé Feio, que vinha do mercado a comer uma tira de brinhol. E foi isso, a tal coisa amarela de que toda a gente em Vila Viçosa falou durante os meses seguintes, lembrada do que o bicho trazia espetado num chifre quando chegou à mata e entrou pelo restaurante «Os Cucos», sem pedir licença…

Momento 2 – Concerto
Foi no concerto do Marco Paulo? Ou no do Roberto Leal? Há quem diga que foi no das espanholas Azúcar Moreno, mas como a lenda se instalou, agora é difícil ter certeza absoluta do instante em que a coisa se passou. Certo, certo, é que o Nicas Passarinho já entregara cassetes e CD em tudo o que era editora discográfica e nada. Ninguém queria saber dele. Mas a vontade que o rapaz tinha de triunfar na música era muita e naquela noite estavam no arraial dois ou três repórteres que cartas anónimas suas tinham espicaçado. «Cerca da meia-noite, antes do fogo…», dizia a missiva. E assim foi, no último espectáculo da festa. À hora marcada, com o seu penteado à rockabilly e uma camisa a cintilar de lantejoulas, o Nicas subiu ao palco, arrancou a guitarra eléctrica das mãos de um dos músicos e irrompeu num «Johnny be good» ainda mais faiscante que o do Marty McFly do filme «Regresso ao Futuro». Claro que passou a noite no calabouço da GNR, mas no dia seguinte tinha contrato para a gravação de um disco numa editora do Montijo, o qual vendeu 327 exemplares e que só não teve mais sucesso porque a hora era de hip-hop e não tanto de rock & roll. Ainda por cima com aquele apelido… Mas o anseio cumprira-se. Diz-se que este ano tocará na segunda noite.

Momento 3 – Fogo
Ainda hoje o Manel Palminha se pergunta como o destino foi tão bom para ele. Ia no dia seguinte fazer o mercado do Pinhal Novo e como partia cedo, a fim de arranjar um bom lugar, levou para os Capuchos o carro de caixa aberta já cheio de chouriço, farinheiras e paios, tudo convenientemente coberto com oleados. Deixou o filho na cabine, dizendo-lhe «Olha pela mercadoria, que nunca se sabe» e foi beber uns copos com amigos, antes do fogo. Pouco depois do final do concerto, começaram os rátátás, os fssssssst e os cábuuuns. Colorido intenso, no céu escuro, tudo olhando para o firmamento, carteiristas à coca e em serviço, nisto cai um foguete em quinta próxima, pasto a arder, tudo com medo que tivesse acontecido algo aos cavalos de toureio ali guardados, que relinchavam nas boxes, acompanhados por galinhas cacarejantes, mas era apenas uma delas que tinha pegado fogo e disparara por ali fora, em chamas, só estacando junto à rede virada à estrada para S. Romão, assada e pronta a comer. E foguete seguinte, no carro do vendedor de enchidos, depois de roto o oleado pela ponta da cana afiada e ardente. Um cheiro a chouriço em canasta de barro, toda a gente a aproximar-se do veículo, atraída pelo saboroso odor, e o filho ao telemóvel «Pai, venha já, que isto está a esturricar». Não havia pão, mas a navalha do Palminha cortou mais que muitos pedaços de carne vendida a um euro, mercadoria despachada e gasóleo poupado, da prevista viagem que não se fez. Claro que alguns nacos eram mais tições do que outra coisa. Mas, àquela hora, alguém ligou a isso?...

Momento 4 – 2006
E este ano? Decerto acontecerão mil coisas como estas, na festa que afinal tem como mais importante vertente a religiosa, entre muitas outras, de género distinto, para divertida folgança de calipolenses e forasteiros que visitam Vila Viçosa. Que todos se alegrem, em honra dos frades capuchinhos que oferecem o nome ao evento, são os fortes e sinceros desejos da organização.
Como chegar a Vila Viçosa? Consulta Mapas e estrada do reino na barra lateral.
Onde comer? Não se preocupem há muita qualidade e quantidade.
Onde dormir? Também não se preocupem, ninguém dorme; é da festa para a garraiada. Em caso de extrema necessidade é procurar o local mais fresco e "ferrar o galho".

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