Momentos de arte...

Ninguém
nenhum lugar se escuta no lugar onde não existes.
aqui, não há sequer o teu esquecimento. há palavras
que não te negam. crescemos sem esperar nada de ti.
se és o silêncio, nós não conhecemos o silêncio. Se és
a solidão, és inútil. o que existe longe de nós não é a
nossa casa. nós suportamos as paredes da nossa casa.
nenhum tempo pode esquecer o tempo que te esqueceu.
agora, a música repete outros rosto. os instantes não
se lembram de ti. o horizonte tenta proteger-te do medo.
os versos são os degraus da escada que o príncipe
desce devagar. o seu pé direito está sobre esta palavra.
antes dos versos, estava o quarto e a janela. o príncipe
desce devagar. o seu pé esquerdo está sobre esta palavra.
entra no interior da casa. ouve-se a noite. não se ouve
o coração do príncipe. ouve-se, neste verso, o seu pé direito.
não se sabe o que irá encontrar na escuridão que o puxa.
assenta aqui o seu pé esquerdo e lembra-se do que perdeu.
o príncipe foi príncipe. conheceu palácios que não existem.
o príncipe, pé direito, desce devagar e lembra-se de tudo.
pela última vez, a memória. perguntas sem resposta
desaparecem, pé esquerdo, neste instante da última vez
antes do interior da casa, do interior de si, o príncipe pousa
os dois pés no último verso e esquece tudo o que nunca soube.
José Luís Peixoto


2 Comentários:
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