quinta-feira, junho 16, 2005

Momentos de arte...


Ninguém

nenhum lugar se escuta no lugar onde não existes.
aqui, não há sequer o teu esquecimento. há palavras
que não te negam. crescemos sem esperar nada de ti.

se és o silêncio, nós não conhecemos o silêncio. Se és
a solidão, és inútil. o que existe longe de nós não é a
nossa casa. nós suportamos as paredes da nossa casa.

nenhum tempo pode esquecer o tempo que te esqueceu.
agora, a música repete outros rosto. os instantes não
se lembram de ti. o horizonte tenta proteger-te do medo.

os versos são os degraus da escada que o príncipe
desce devagar. o seu pé direito está sobre esta palavra.
antes dos versos, estava o quarto e a janela. o príncipe
desce devagar. o seu pé esquerdo está sobre esta palavra.

entra no interior da casa. ouve-se a noite. não se ouve
o coração do príncipe. ouve-se, neste verso, o seu pé direito.

não se sabe o que irá encontrar na escuridão que o puxa.
assenta aqui o seu pé esquerdo e lembra-se do que perdeu.

o príncipe foi príncipe. conheceu palácios que não existem.
o príncipe, pé direito, desce devagar e lembra-se de tudo.

pela última vez, a memória. perguntas sem resposta
desaparecem, pé esquerdo, neste instante da última vez

antes do interior da casa, do interior de si, o príncipe pousa
os dois pés no último verso e esquece tudo o que nunca soube.

José Luís Peixoto

2 Comentários:

Blogger audrey said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

quinta-feira, 16 junho, 2005  
Blogger D. Nuno Álvares Pereira said...

Audrey, comments of that type are not allowed nor even welcome in this blog.

quinta-feira, 16 junho, 2005  

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