sexta-feira, março 11, 2005

Leituras em avulso: O SENHOR DAS MOSCAS de W. Golding

Um avião lotado de crianças e adolescentes cai numa ilha deserta. Os jovens sobrevivem e, aos poucos, vão se reunindo num grande grupo. Em assembleia, os rapazes designam um líder. Longe dos códigos que regulam a sociedade dos adultos, esses jovens terão de inventar uma nova civilização, alicerçada exclusivamente nos recursos naturais da ilha e em suas próprias fantasias. Até aí este romance do inglês William Golding poderia ser lido como simples aventura infanto-juvenil, cheia de caçadas, banhos de mar e, ao final, a descoberta de um tesouro escondido por piratas. Mas não é o que ocorre.
Apesar dos esforços iniciais de organizar uma sociedade auto-suficiente e equilibrada, o bando vai progressivamente cedendo à vida dos instintos, regredindo às pulsões de violência e de morte. A disputa pelo poder é um dos estopins da desordem. E o paraíso do "bom selvagem" acaba em carnificina. Invertendo o clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, em que um único indivíduo conseguia impor a civilização ao estado de natureza, Golding expressa neste romance sua descrença na bondade inata dos homens e em sua capacidade de criar um mundo melhor.
Lançado em 1954, menos de uma década após os campos de concentração nazistas e a bomba de Hiroshima, esta é a maior obra prima do prémio Nobel da literatura de 1983.
É sem dúvida um livro intemporal e o primeiro no meu top de preferências.

O valor das coisas em mim...

...torna difícil as decisões.
De quando em quando surgem opurtunidades de fazer bem por coisas e pessoas que têm significado para nós.
Nessas alturas, normalmente, esquecemos tudo o resto e atiramo-nos de cabeça na incessante luta de ver o que/quem gostamos, bem; embora haja decisões que, precisamente por estarem directamente relacionadas com o nosso afecto, não devem ser tomadas de ânimo leve.
Quero muito fazer bem mas preciso ter a certeza que sou capaz de o fazer.
Vou continuar nas minhas divagações psico-filosóficas até chegar a uma conclusão.
Bom fim de semana a todos, hoje é dia de voltar à vila....

Frase da semana - 9

"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."

Platão

sexta-feira, março 04, 2005

O regresso do Prof. Cavaco - o tal professor universitário

Se as sondagens estão de novo certas como as que davam maioria a Sócrates...
"Se as eleições presidenciais se realizassem esta sexta-feira o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva ganhava o escrutínio com 46,8% dos votos, três vezes mais que António Guterres, que surge em segundo lugar na sondagem publicada pelo O Independente, citada pela Agência Lusa.
De acordo com a sondagem realizada pelo Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado (IPOM), o ex-primeiro-ministro socialista António Guterres obteria apenas 16,3% dos votos, menos 30,5% dos votos que o candidato social-democrata Cavaco Silva.
Marcelo Rebelo de Sousa surge como a terceira opção dos portugueses para Presidente da República com 14,1% das intenções de voto, de acordo com o painel de candidatos sugerido pela sondagem.
Com metade dos eventuais votos do comentador televisivo surge o fundador do CDS/PP Freitas do Amaral, com 7%.
Se se candidatasse às eleições presidenciais de Janeiro de 2006, o primeiro-ministro em funções, Pedro Santana Lopes, seria quinto com apenas 2,9% dos votos, seguido de Pinto Balsemão que alcançaria 1,5% dessas intenções.
Confrontando apenas dois candidatos, o estudo mostra que Cavaco Silva ganha os duelos com António Guterres (61,9% contra 28,5%) mas também com Freitas do Amaral (66,6% contra 21,6%).
A Sondagem foi realizada pelo IPOM nos dias 28 de Fevereiro e 01 de Março através de 569 entrevistas e apresenta um erro de amostragem de quatro pontos percentuais para um nível de confiança de 95,5%."
Diário Digital/ Lusa
04-03-2005

quarta-feira, março 02, 2005

Frase da semana - 8

«Tende sempre o espírito crítico, para vós não deve haver tabus. Dentro do respeito que mereceis vós mesmos vós deveis criticar impiedosamente tudo quanto existe. Sim. Criticar sem receio de que vos chamem demolidores. Vós sois demolidores do mal, vós sois os construtores do futuro ideal.»
Emídio Guerreiro

Quem quer ser político?

A maior abertura do sistema partidário ao recrutamento de políticos não profissionais e uma sociedade civil mais exigente na avaliação de desempenho dos agentes políticos são os caminhos a seguir para formar uma classe política mais competente. Estas são as principais conclusões do painel de especialistas que o EXPRESSO consultou sobre a renovação das elites políticas. Segundo João Salgueiro, presidente da SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), o problema da qualidade dos agentes políticos centra-se, sobretudo, no baixo nível de exigência do «mercado político» português. «Em geral, os portugueses são maus ‘consumidores' do sistema político. Isto é, votam, mas a seguir desinteressam-se completamente das instituições e da vigilância permanente do poder político quanto ao cumprimento das promessas eleitorais», refere. «Por exemplo, o incumprimento da lei é tolerado e não há acção cívica forte e sistemática contra esta realidade», esclarece.
Outro elemento da sociedade civil que tem contribuído para uma diminuição da qualidade do desempenho dos políticos é, segundo Vítor Bento, presidente da Sociedade Interbancária de Serviços, a ausência de regulação deontológica da comunicação social. «Esta situação tem estimulado o rebaixamento dos padrões éticos», salienta.
Para aquele responsável, este nivelamento «por baixo» nos padrões editoriais da maioria dos «media» tem favorecido «os instintos, as paixões, a mediocridade e o relativismo moral» e menosprezado «a racionalidade, a qualidade e a hierarquia de valores, com inevitáveis consequências na degenerescência do próprio processo de avaliação democrática e no inevitável afastamento dos melhor qualificados».
Uma posição corroborada por Manuel Meirinho Martins, docente em ciência política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa: «o grau de avaliação por parte dos órgãos de comunicação social é de tal maneira lancinante, diário e mediatizado que há uma tendência castradora na avaliação da classe política — agigantam-se muito os defeitos e minimizam-se as qualidades».
Quanto aos critérios de recrutamento dos políticos, a opinião dos vários especialistas contactados pelo EXPRESSO é unânime: os partidos estão fechados sobre si próprios e é crucial que se abram aos políticos não profissionais. «A profissionalização da classe política, uma tendência normal nas democracias consolidadas, não ajudou na qualidade da democracia portuguesa», observa António Costa Pinto, investigador em ciência política no Instituto de Ciências Sociais (ICS).
Isto porque, tanto na situação de governo, como na oposição, os partidos reduzem o seu recrutamento «ao núcleo duro profissionalizado» na carreira política, embora muitas vezes «tentem atrair independentes».
Com efeito, a experiência política a nível partidário e electivo é o critério utilizado com maior frequência no recrutamento de deputados. Prova disso é o estudo conduzido por André Freire, docente no ISCTE, sobre a profissionalização dos deputados portugueses.
Em 2002, cerca de 80% dos deputados tinham experiência em cargos directivos partidários. «Ou seja, a partir da IV legislatura a abertura do sistema parlamentar a novos políticos situa-se à volta de 20%. Isto aponta para uma muito fraca abertura do sistema político à renovação das elites dirigentes e é um indício do fechamento do sistema político a outros círculos da sociedade», comenta.
Para inverter esta situação, João Salgueiro sugere que uma das linhas de acção seja a constituição de uma intervenção cívica mais forte e sistematizada. «Os movimentos de utentes não se podem restringir apenas a casos pontuais — é necessário uma intervenção permanente e que abranja todo o sistema. Além disso, os cidadãos devem envolver-se activamente nas associações de pais e nas juntas de freguesia dos bairros, por exemplo. As pessoas têm de perceber que o Estado não pode cuidar de tudo sozinho», argumenta.
Por sua vez, Vítor Bento defende que se deverá aumentar a remuneração da actividade política a nível executivo, por forma a que as pessoas de qualidade possam encontrar mais oportunidades de «realização material e profissional» no mundo político.
Para quebrar o fechamento partidário e diversificar a base de recrutamento de deputados, António Costa Pinto propõe que os partidos devem aumentar a possibilidade de acesso a cargos electivos das pessoas que estão fora do «núcleo duro» profissionalizado, estabelecendo cotas experimentais para representantes de «causas fortes» na sociedade civil, «próximas da área política de cada partido».
Vítor Bento concorda com esta perspectiva, preconizando uma maior abertura institucional à participação da sociedade civil nas funções políticas, «reduzindo o monopólio partidário», ao que o investigador do ICS acrescenta a necessidade de encontrar «estruturas de ligação à ‘sociedade civil das elites', mais próximas da competência técnica e do mundo profissional».
Como renovar a elite política

1 – Aumentar o salário e as condições de trabalho dos Deputados e outros lugares onde se refugiam os «políticos profissionais», nomeadamente as Câmaras Municipais
2 – Encontrar fórmulas de financiamento mais transparentes para os partidos, diminuindo a corrupção e o risco inerente que o facto comporta para a elite política, sobretudo para o segmento que concorre a cargos electivos
3 – Funcionamento eficaz do sistema de Justiça, por forma a que as pessoas difamadas possam em pouco tempo restabelecer a sua credibilidade e a sua integridade publicamente percebida e os difamadores sejam severamente punidos, por forma a desincentivar a corrupção
4 – Maior reconhecimento social devotado à dedicação à causa pública
5 – Estabelecer cotas experimentais nos partidos para representantes de «causas fortes» na sociedade civil, próximas da sua área política
6 – Abrir um pouco mais as estruturas de decisão política a sectores altamente profissionais que têm a capacidade de aconselhar e apresentar soluções do ponto de vista técnico
7 – É muito importante para quem governa saber dominar os impulsos da exposição mediática
8 – Reforma do sistema eleitoral, funcionando com dois círculos eleitorais: um nacional e outro uninominal, de forma a que este último crie um «caciquismo responsável»
9 – Regulação da comunicação social por forma a assegurar elementares princípios deontológicos: as pessoas de qualidade têm relutância em se expor a um circo mediático sem regras, onde se sujeitam a ser moralmente maltratadas e violentadas
(10-12-2004) Expresso Emprego Maribela Freitas e Ruben Eiras
Fontes: António Costa Pinto, João Salgueiro, Manuel Meirinho, Vítor B.

A minha análise (a frio)

A nomeação

Foi oferecido a Durão Barroso o cargo de Presidente da Comissão Europeia. Um cargo honroso a nível pessoal e institucional para Durão e para o país.
A decisão era difícil. Outros Primeiros Ministros recusaram, Durão aceitou.
Portugal fica sem PM e o Presidente da República deu ao PSD a mesma oportunidade que tinha dado ao PS quando Guterres se demitiu; o PS preferiu as eleições o PSD e o seu líder recém indigitado aceitaram a governação e Santana tomou posse como PM.
Na minha opinião, este foi o seu maior erro político, pois aos olhos do PR, de grande parte do PSD (que não concordou com a sua nomeação), dos media e em consequência da maioria da população, Santana nunca teve legitimidade para governar.


A curta governação

Quatro meses não dão para muito, no entanto, deram para ver que a boa vontade não chega. Santana teve ao seu dispor um bom grupo de ministros que não soube gerir. Além disso, bastam umas quantas maçãs podres para estragar todas as que estão no cesto, e Gomes da Silva, Arnaut, e mais algum que possa esquecer, não estiveram nunca à altura do desafio.
Colocação de professores, caso Marcelo etc etc etc não abonaram, nem o poderiam fazer nunca, a favor de Santana.
Entretanto, no reino laranja, Relvas entretinha-se a dividir o partido e a fazer de tudo para afastar possíveis adversários políticos.
Hoje e durante o futuro próximo, o PSD pagará a factura da divisão provocada nos últimos meses.
Certo é que Santana não gozou nunca da protecção do PR, a mesma que Guterres teve durante o seu período de “desorientação política”, e asneira após asneira, caso após caso e polémica após polémica (todas elas bem espremidas pela comunicação social), a paciência de todos esgotou-se e o PR dissolveu a Assembleia da República. Foi a primeira vez que, existindo uma maioria no parlamento, o mesmo foi dissolvido.


A demissão

Santana tomou, depois da dissolução da AR, a decisão mais acertada tendo em conta as circunstâncias: demitiu-se.
Pelo meio, o PR esqueceu-se de avisar Mota Amaral, o Presidente da Assembleia da República, que o orgão a que presidia tinha sido dissolvido e Mota Amaral soube da notícia através da comunicação social. Lamentável.
Gostei da postura de Sampaio durante grande parte dos seus mandatos, no entanto, nunca antes Sampaio tinha feito tanta declaração nem se tinha intrometido tanto na governação como o fez com Santana. Quase todos os dias Sampaio prestava declarações ou mandava recados através da imprensa.


A campanha

Fiz num post anterior a previsão que esta campanha seria a mais vazia de conteúdo de que há memória na democracia portuguesa. Não errei.
Entre ofensas pessoais, música pimba, “tiros nos pés”, autocarros que percorrem o país atrás dos candidatos, comícios teatralizados, paragens e suspensões das campanhas (ou não) etc assistimos a debates onde os projectos e planos para o futuro não passaram de uma miragem, ninguém falou deles mas todos insistiram que existiam!
Fazendo uma análise sumária, Paulo Portas terá feito a melhor campanha de todos os partidos.
Os dois grandes, PS e PSD, ficaram muito aquém das campanhas realizadas noutros tempos. Muita imagem, muito marketing e poucos projectos e propostas. Alguém se lembra de alguma?
Louçã e o BE fizeram o que sempre fizeram e iludiram com conversa fiada e utopismo de quem nunca chegará ao poder grande parte dos jovens.
Garcia Pereira lá mobilizou a família mais um vez e pronto, o mesmo de sempre: zero. De igual forma se portou o POUS.
Jerónimo de Sousa esteve claramente acima de qualquer campanha realizada por Carvalhas, independentemente dos resultados. Mostrou simpatia e humildade e da sua cor política ou não, ganhou o respeito de muitos.


As eleições

Contra factos não há argumentos, e é um facto que a vontade da gigantesca maioria do povo português não era a continuidade de Santana à frente dos destinos do país.
Foi uma derrota evidente demais para que Santana colocasse sequer a possibilidade de continuar à frente do PSD. Não se demitiu. Não teve a coragem e honra que pautaram a atitude de Paulo Portas; Santana marcou um congresso antecipado e esperou três dias para saber se teria ou não apoios suficientes para se recandidatar. Não o conseguiu.
Sempre fui um “santanista” e em relação a muita gente que critica Santana, eu estarei à vontade para o fazer; defendo que, apesar de tudo que o que se passou, o maior mal de Santana foram as más companhias. Errou por não ter tido a perspicácia e inteligência para tomara as decisões certas no momento certo e por confiar muito nas pessoas erradas. Seria sempre o maior culpado, era o líder.
Paulo Portas tinha colocado a fasquia alta demais. Não atingiu os objectivos e apesar do bom resultado obtido (tendo em termo de comparação as eleições de 2002) assumiu a derrota na hora e demitiu-se. Uma atitude rara e valiosa que poderá quiçá valer-lhe a continuidade à frente do partido, a pedido do partido! Foi de Homem.
Jerónimo voltou a colocar a CDU como a terceira força política e com a esquerda toda a subir difícil seria não entrar neste comboio.
O BE subiu bastante, o que é preocupante (não quero acreditar que tanta gente anda a peder o juízo, não bastava já o Freitas do Amaral!) e logo após a exposição das primeiras previsões aparece Louçã com ar de demagogo arrogante que não sabe qual é o seu lugar e fala como se de facto fosse alguém importante!
Sócrates fez o que lhe competia: festejou uma das maiorias mais claras da democracia portuguesa e a primeira de esquerda.

Entretanto, e no dia das eleições, Mário Soares esquece-se da figura pública que é e da importância política que um dia teve, e faz declarações incentivando o voto no PS e aludindo a uma então desejada maioria absoluta, arriscando-se a ser multado de cinquenta cêntimos a cinco euros (salvo erro). Rídiculo mas sobretudo desprestigiante tendo em conta o que o senhor representou um dia para o PS e para Portugal.

Um Portugal Diferente – o pós-eleições

Poucos podiam esperar um resultado como o que aconteceu. As expectativas das diferentes partes da sociedade, foram positivamente e negativamente superadas, dependendo das características partidárias de cada uma das facções.
O que na realidade muda, é muito mais do que previamente poderia ser esperado.
Por um lado, a economia irá de certo ter um período no qual as expectativas irão levar ao colo os diversos índices, que acredito, e até ao final do ano, poderão levar a um crescimento económico falsamente sustentado, pois, 2006, irá contrabalançar esta tendência.
Por outro lado, socialmente o país verá uma diminuição do desemprego, mas sustentada num claro aumento do monstro da função pública, com aumentos salariais não superiores à inflação.
Não poderemos, no entanto, esquecer um aviso dado pelo Bloco de Esquerda, que acredito que deve ser levado muito a sério: o aborto veio para ficar! E a regionalização também, sendo que acredito que, ainda este ano, o referendo venha a ser uma realidade.
Não poderemos esquecer ainda um aumento do IRS, que irá incidir principalmente na classe média, e no final de 2006 esta terá perdido essencialmente 2% a 5 % do seu poder de compra.
Por outro lado, teremos mais auto-estradas sem portagens.
No essencial, acredito ainda que venham a surgir problemas ainda maiores com o défice e que em 2005 esse supere os 4,5% tendo como base desta opinião o facto do PS desde o inicio da campanha ter claramente referido que era contra o pacto de estabilidade.
Durante 2006, prevejo que o país irá apostar num aumento das pessoas na função pública, o que irá claramente sufocar um crescimento sustentado da economia, contracenando-se tal situação com um melhoramento social das camadas mais desfavorecidas e que a médio prazo poderá não permitir um crescimento acima da média da U.E. pelo simples facto que quem faz crescer a economia como sabemos é a classe média.
Jorge M. S. Ferreira