segunda-feira, dezembro 20, 2004

Alentejo à moda da Europa

Num futuro já presente, o nosso Alentejo acabou por se enquadrar numa dinâmica progressista, mas no entanto ainda não suficiente para acompanhar as restantes regiões de Portugal ou para recuperar o atraso em relação a uma Europa cada vez mais distante. Uma Europa que a cada dia que passa evolui social económica e politicamente acima da média da região alentejana, cavando um fosso cada vez maior e mais difícil de recuperar.
Hoje deixamos de ser a região mais pobre da U.E. para passarmos a ser considerados somente entre as mais pobres. No entanto este facto não se deve a um desenvolvimento sustentado ou económico do Alentejo acima da média comunitária, mas sim devido ao alargamento da União Europeia, que enquadrou a maioria das regiões dos países aderentes abaixo dos 75% da média do PIB da U.E. e ainda abaixo da média da nossa região.
O nosso Alentejo possui hoje meios de comunicação que podemos considerar como um lado importante e uma mais valia para o desenvolvimento económico que por sua vez contribui para um melhoramento social das populações da região. No entanto as necessidades ao nível social contrariam esta lógica, pois o envelhecimento, empobrecimento e as carências cada vez maiores de uma população vão para lá dos meros efeitos de uma crise económica a nível mundial. São claramente problemas ao nível estrutural e organizacional da sociedade regional, tendo como referencia os vícios políticos dos diversos poderes autárquicos.
Desta forma a resolução dos problemas fulcrais de uma população carente, não passa por lhes darmos um hospital vazio de pessoal qualificado ou um trabalho camarário em que a necessidade daquele posto de trabalho é somente direccionado ao indivíduo em questão. Passa isso sim por serem criadas a condições para o surgimento de iniciativas privadas mas duradoiras ou para a qualificação de uma população com gosto pela sua região e que desta forma possa garantir que dessa possível formação sejam os alentejanos que usufruíam dela.O mais fácil é darmos pão a quem tem fome, o mais complicado é dar-lhe as condições necessárias para poderem não voltar a ter fome e começarem a fazer o pão e não só.


JMF

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Não sei se será bem assim..
Já pensaram que talvez as coisas estejam melhores como estão, e que o "atraso" de Portugal não o é verdadeiramente?
Deixo-vos com um poema que julgo belíssimo, escrito por um amigo meu (saudades ó Paulo!), e que podem encontrar, entre outros textos, em aldeia.no.sapo.pt

Manuel

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Portugal

Vais no teu passo
E o mundo pensando ir mais depressa
Atrasa e guarda só o seu cansaço

A tua lentidão é uma pressa
Pesada profunda desmedida
Não tens relógio nem isso te interessa
Há um tempo em ti de amar a vida

Do fundo do silêncio de viveres
Gritas ao outro tempo não te sigo
És como uma nuvem que dissesse
Não vou contigo ó vento vens comigo

Acho que és semelhante ao alicerce
Há em ti qualquer coisa que não parte
Na confusão atroz de estar aqui
Mas tu parecendo imóvel tens a arte
De arrastar todo o mundo atrás de ti


Paulo Jorge Geraldo

quarta-feira, 22 dezembro, 2004  
Blogger D. Nuno Álvares Pereira said...

Caro Manuel, talvez seja verdade o que dizes, talvez seja o atraso em relação ao resto do país e à Europa que dá ao Alentejo uma qualidade de vida que existe mas que será sempre mais visível e notória para quem não vive cá. No entanto, compreendo os medos e anseios do JMF.

Aos olhos de quem por cá está, a realidade será outra um pouco diferente; a qualidade de vida no Alentejo é reconhecida pelos alentejanos, mas como podem os jovens alentejanos pensar em continuar na terra que amam se além dessa afinidade não há nada mais que os ligue à terra? As ambições dos jovens são superiores às da região e ninguém (instâncias do poder) se preocupa em criar as condições para que a ambição e capacidades desses jovens sejam aproveitadas pela terra.
Dou o exemplo de uma das melhores empresas portuguesas, a Delta Cafés. O Sr. Comendador Rui Nabeiro emprega na sua empresa grande parte da população de Campo Maior, ligando as famílias à terra e providenciando as necessidades da mesma. Cada vez que é necessário alguém na empresa, a primazia é dada a pessoas da terra ou a futuros licenciados de Campo Maior, alguns cujos estudos foram financiados pelo Sr. Nabeiro. O que é que Sr. Nabeiro ganha com isto? Ganha profissionais dedicados, pessoas que trabalham na construção de uma empresa cada vez maior, uma terra que não vê abalar os jovens e garante a continuidade da empresa na terra. É claro que também poderia empregar bons profissionais de outros lados (e fá-lo também, mas com pouca regularidade) mas os benefício não seriam nunca tão grandes como empregando um profissional (ainda que não tão bom como o outro) que seja campomaiorense.
Talvez não fosse assim tão difícil realizar isto noutras empresas e até nas câmaras (e vou mais longe, talvez se pudesse dar à colocação de professores uma perspectiva regionalista! ) mas não acontece assim Manuel.
Nunca pensei em viver fora de Vila Viçosa, sempre julguei a minha vida como sair para estudar, formar-me e depois alguns inevitáveis anos às voltas no país a dar aulas aqui e ali, voltar e ajudar os que estão a fazer mais e melhor. Infelizmente, nada me garante um regresso à terra e fico entre trabalhar noutra área que não a da minha formação e ficar por Évora ou Vila Viçosa ou dar aulas numa outra terra sabe-se lá onde!
Mas se o meu caso é mais complicado, por ser professor, esqueçamos isso e imaginemos que sou farmacêutico, arquitecto, engenheiro civil, enfermeiro ou outra coisa qualquer, o Alentejo cria condições para receber os filhos que se formam? Não.
No Alentejo, há qualidade de vida, mas é algo que os alentejanos sempre tiveram, por isso nota-se mais a falta de outras coisas que, embora não sejam básicas, são importantes para a inserção do povo alentejano no total do povo português e para a igualdade de oportunidades entre as regiões, que é enfatizada numas coisas e à qual se fecham os olhos noutras.
No Alentejo, raros são os cinemas que passam filmes diariamente, raros são os cinemas com mais de dois filmes à escolha, rara é a terra que tem centro de saúde e urgências abertos 24h por dia, no Alentejo é mais difícil fazer compras, no Alentejo não tens concertos e teatro de gabarito não regional, no Alentejo venderam-se terras ao desbarato a estrangeiros, no Alentejo foi construído o Alqueva para os espanhóis terem benefício do mesmo (ninguém criou as condições para assegurar a que seria o povo alentejano a extrair benefícios), etc. podia ficar aqui muito tempo, enfim.

O povo e a situação do Alentejo é, e sempre foi, muito peculiar. É um povo que muitas vezes está "orgulhosamente só" mas a solidariedade nacional ao nível da aceitação da peculiaridade do caso alentejano é cada vez mais necessária.

Vou-me tornando cada vez mais euro-céptico, não soubemos aproveitar as oportunidades que os fundos europeus nos davam e agora só vejo solução com um fechar de portas.

Cada vez seremos menos representativos na Europa embora cada vez recebamos menos dinheiro e assim seremos, cada vez mais, os “menos” do velho continente.

No entanto, orgulhoso em ser Alentejano. Orgulhoso em ser Português.

Um Santo Natal e boa viagem meu caro

Abraços

quarta-feira, 22 dezembro, 2004  
Blogger D. Nuno Álvares Pereira said...

Esqueci-me e quero felicitar o autor do poema, pois não queria deixar passar em claro a vísivel aptidão memso para a arte de escrever poesia.

quarta-feira, 22 dezembro, 2004  
Blogger T1 said...

De facto falar que o Portugal rustico e atrasado é bonito, faz-me recordar aquilo que estudei sobre o Estado Novo, quando não tendo mais nada para se vangloriar Portugal era "forçado" a gabar-se da sua tradicionalidade, elegendo a aldeia mais portuguesa de Portugal etc.
Não quero com isto ofender ninguem... mas defender que o atraso dá um certo valor ao alentejo e a Portugal é querer o não querer, é como defender um defeito, não vale a pena o problema existe!!
Ver terras tipicas onde não se passa nada tem uma certa piada nos passeios de fim-de-semana em que se foge da cidade para respirar ar puro e ouvir o silencio, mas para aqueles que lá vivem essa é só outra forma de lhes dizerem que estão votados ao abandono!
Concordo com tudo o que se disse embora seja forçado a discordar desse orgulho no atraso...
Planos de futuro precisam-se, antes que venham mais "camones" pegar nisto tudo!
PS: Espero que se arrange um urgentemente para Vila Viçosa, a terra que tanto amamos e que mesmo longe não escondo que gostaria de voltar, só que tal como disse o autor do blog, as oportunidades são nulas..
Um abraço a todos e votos de Feliz Natal!

quarta-feira, 22 dezembro, 2004  

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